Notícias | 19 de dezembro de 2005 | Fonte: O Estado de S. Paulo

Custo do sinistro e do seguro

Custo do sinistro e do seguro

Antonio P. Mendonça

De acordo com dados preliminares apresentados durante a décima primeira conferência da ONU sobre mudanças climáticas, em Montreal, no Canadá, as perdas ocasionadas por desastres naturais ligados ao clima chegaram, no ano de 2005, a astronômicos 200 bilhões de dólares. Deste total, 70 bilhões de dólares foram pagos pelas seguradoras, a título de indenizações de sinistros cobertos.

Estes valores são os mais altos da história e estão diretamente ligados ao número de furacões e tempestades tropicais, em quantidades nunca vistas desde 1850, quando o acompanhamento destes eventos passou a ser cientificamente feito.

É de se notar que este prejuízo não engloba os outros tipos de desastres naturais, como os terremotos e tsunamis, mas apenas os de origem climática, que, de acordo com os especialistas das seguradoras, estão subindo em percentual acima da média histórica, provavelmente em função do aumento das emissões de gases poluentes na atmosfera.

A comparação com o ano de 2004 mostra porque o custo dos seguros tende a subir, como única forma de preservar o equilíbrio das carteiras das seguradoras e das resseguradoras internacionais que atuam nestes tipos de risco. O aumento das indenizações decorrentes de catástrofes naturais ligadas ao clima foi de 55%, saltando de altíssimos 45 bilhões de dólares em 2004 para os atuais 70 bilhões de dólares, que, para piorar o quadro, apresentam tendência de crescimento nos próximos anos.

Ora, se o valor das indenizações subiu, em um ano, 55%, não há como o seguro continuar custando o mesmo preço. As indenizações de seguros são pagas por um fundo composto pela soma dos prêmios pagos pelos segurados. Com base na lei dos grandes números e em tabelas estatísticas, as seguradoras precificam os prêmios, de forma a atender as necessidades de capital para pagar as indenizações e os custos comerciais e administrativos das seguradoras. Quando acontece um desequilíbrio da ordem de grandeza dos números acima, a única forma das seguradoras recomporem o fundo é aumentarem o preço dos seguros para reequilibrar a conta das entradas e das saídas.

Assim é certo que nas próximas renovações dos seguros destinados a cobrirem as catástrofes naturais de origem climática os segurados sejam surpreendidos com fortes aumentos nos preços e eventuais reduções da abrangência de suas coberturas.

E esta conta não vale apenas para os países atingidos por furacões como o Katrina, ou pelos tufões que varrem o litoral do extremo oriente. Infelizmente o Brasil entrou na rota deste tipo de evento. O tornado que passou pela região de Indaiatuba, no interior de São Paulo, foi um aviso e as tempestades tropicais ou furacões que atingiram Santa Catarina foram a confirmação de que não somos mais um país abençoado por Deus, onde só os políticos atrapalham as coisas.

Por sorte, continuamos não tendo grandes terremotos ou maremotos. Mas os eventos climáticos, que sempre existiram e sempre causaram danos, principalmente nos meses de verão, não podem mais ser ignorados, nem ficarem sem cobertura de seguro, sob risco do país pagar – retirando de sua insuficiente poupança interna – um preço absurdo pela recuperação dos estragos.

O progresso e a urbanização de grande parte de territórios até pouco tempo atrás praticamente desertos está cobrando seu preço, e este preço é muito caro, especialmente porque atinge com mais violência as camadas menos favorecidas da população.

Mais que nunca é hora do governo se sensibilizar para um assunto que ele não gosta, e permitir a criação de um plano de proteção nacional baseado em parte nas apólices de seguros emitidas pelas seguradoras privadas, com o suporte da atividade resseguradora internacional. Para isso é indispensável quebrar o monopólio do IRB, o que pode ser feito rapidamente, com um pouco de pressão no Congresso, dado não haver ideologia ou divergências políticas envolvidas com a questão.

Antonio Penteado Mendonça é advogado e consultor, professor do Curso de Especialização em Seguros da FIA/FEA-USP e comentarista da Rádio Eldorado. E-mail: [email protected]

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