Uma interpretação: o porquê dos corretores de seguros perderam a batalha do SIMPLES

01/07/2003 / FONTE: CQCS - Centro de Qualificação do Corretor de Seguros


Como é do conhecimento geral, perdemos a batalha do Simples. Era previsível? Sim, era previsível. Vou levantar uma série de pontos que demonstra o quanto as nossas chances foram pequenas.
Primeiro argumento da derrota: Lula traiu a classe. Quando se diz tal coisa, presume-se que quaisquer dos outros candidatos, se vencedores, fariam algo de diferente. Ora, por diversas vezes na campanha foi noticiado que as assessorias econômicas dos presidenciáveis tinham poucos pontos de divergência sobre a condução da política econômica. O sr. Ciro, o sr. Garotinho, o sr. Serra tinham como assessores pessoas da mesma escola econômica que venceu as eleições. E, para falar a verdade, o atual governo pouco difere do anterior. O sr. FHC, mesmo, só incluiu o Simples para os corretores porque perdera a eleição. Se tivesse ganho, sua equipe teria se comportado como sempre se comportou: não abrindo mão de qualquer receita. Não por acaso, a reforma tributária nunca saiu do papel, a despeito do governo fernandista dispor de maioria no Congresso.
Então, se o problema era no núcleo do Poder Executivo, foi obviamente um equívoco pressionar o Legislativo. Quem tinha de ser convencido era o Poder Executivo, porque é dele o poder de veto.
Alguns dirão que o governo perdeu uma chance de contribuir com o aumento de empregos. Ora, vamos ser honestos e objetivos: esse é um governo de pessoas que já ouviram, na qualidade de sindicalistas, n vezes empresários alegarem tal tipo de coisa e depois não cumprirem. Por que agora seria diferente? Pela nossa história? Quando se falou em internet, quando as seguradoras falaram em enviar as propostas eletronicamente, não me lembro de alguma entidade representativa ter observado que isso representaria o desemprego de muitos securitários. E a despeito de muitos deles terem perdido o emprego nos últimos anos, também essas lideranças não soltaram um pio. Pudera: um sistema capitalista funciona com o objetivo contínuo de cortar custos (e no caso do setor serviços, empregos) e aumentar receitas. Nós não trabalhamos para aumentar empregos, nós trabalhamos para aumentar a margem dos nossos lucros.
Há, inclusive, aqueles que dizem ser o Simples o motivo de tantas corretoras terem fechado nos últimos anos. Mas a real razão não seria as nossas parcerias? Nós temos parceiros que dizem respeitar-nos, mas que, por exemplo, no canal banco chegam a vender um seguro de auto pela metade do preço (fato já publicado no CQCS). Nós temos parceiros que vendem um seguro para um corretor e veda para outro, deixando-nos em situação vexatória frente a quem nos procura. Nós consideramos parceiros aqueles que estão a todo o momento dificultando o pagamento das indenizações, passando por cima das leis e até das condições gerais, produzidas por eles mesmos. Nós temos parceiros que, por tudo isso, nos desmoralizam continuamente frente aos nossos clientes e possíveis clientes, que acabam, com justa razão, achando que estamos buscando explora-los ou engana-los. As pessoas que nos procuram estão atrás de preços, porque um seguro de auto não é barato, e só alguns têm essa condição. Se você vai numa livraria, em qualquer uma, o preço é sempre igual. Mas cada corretor tem um preço diferente. Daí, nós perdermos muito tempo com a especulação.
Poderíamos falar também na nossa prática. Muitos corretores, hipocritamente, falam na nossa importância para o consumidor. Discurso bacana, mas os planos de saúde e o seguro de automóvel sofreram alterações por causa de nossas lutas ou por causa de Procon, Ministério Público e associações como o Idec? Quantas vezes seguradoras tentaram baixar a taxa de carregamento de planos de previdência e quantas vezes corretores chiaram, alegando prejuízos com a medida? Alguém se mexe quando, reiteradamente, as seguradoras, com o beneplácito da Susep, inventam cláusulas em seguros que vão de encontro ao CDC? Ou quando a Susep fecha/fechou representações nos estados? Alguém se importa em atender um segurado que, mesmo não sendo seu cliente, precisa de ajuda em DPVAT? Ora, se até os Sincors enviam os segurados para a Delphos, o que podemos esperar da palavra respeito?
Vamos continuar na palavra defesa do segurado: com o corretor é mais seguro. Mas os bancos são criticados. Por que? Porque vendem seguros. Bem, se vendem, é porque há corretores de seguros que estão por trás, garantindo a venda. Então, o problema não é dos bancos. Pode-se dizer que os bancários não são qualificados. É verdade. Mas são qualificados os funcionários das grandes e médias corretoras? Pelo menos, nos bancos, a maioria do pessoal tem nível superior.
Por fim, vamos falar em organização. Quando se parte para uma luta, é necessário que a tropa esteja bem organizada, preparada para tanto. Nossa tropa está/estava organizada? De quantas lutas nacionais ou regionais participamos? Nós sabemos que os congressos de corretores têm servido mais para festividades do que para tomada de medidas concretas. Nós sabemos que cada corretor só quer resolver o seu próprio problema e que se dane o resto. Nós não temos princípios que nos unam, nós só nos unimos por interesses imediatos. Nós aceitamos de forma compassiva a falta de respeito contínua que nossos parceiros nos propõem, e essa carta da direção da Hsbc é mais um exemplo disso (ninguém que respeite seu parceiro faria isso). Nós não estamos discutindo a desregulamentação, que é muito mais grave e prejudicial aos interesses da classe, as discussões sobre o artigo 192 da Cf estão passando adiante sem interferências de nosso lado. Nos poderes públicos, ninguém nos ouve e nem têm interesse nisso, porque, de fato, nós não temos muita importância para a sociedade. Muita gente está se mexendo até para a Campanha contra a Fome. E nós, nem isso.
Em resumo, em termos psicológicos, exorcizar o atual governo é um bom mecanismo de fuga. Mas, será ele o verdadeiro culpado?

RICARDO FERNANDES DE OLIVEIRA
SUSEP 10031637-7
Salvador BA

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2 comentário(s)

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