Mercado de Seguros: O que vai rolar em 2019?

03/01/2019 / FONTE: Sergio Ricardo


Por Sergio Ricardo de M Souza, MBA, M.Sc.

Sempre que alguém do mercado me faz essa pergunta, fico pensando que deveria sacar do bolso uma bola de cristal para enxergar daqui 12 meses, mas o que realmente importa creio que é identificar os caminhos que possam ser trilhados, percorridos por quem tem pressa ou atravessados com mais cuidado.

O que se impõe é avaliar os chamados cenários prospectivos, que é uma forma de sair do campo das adivinhações para, pelo menos, vislumbrar algumas tendências e depois tentar entender o que efetivamente pode rolar no nosso mercado.

Nosso País esteve em crise política e econômica nos últimos anos. A economia andou muito para trás e em seguida não se percebeu uma retomada que pudesse justificar o ajuste e o grande sofrimento social a que todos formos expostos.

Chegando ao final de 2018, a realidade é que o crescimento deverá ficar entre 1% e 1,5%, frustrando as previsões de início do ano, como resultado da contribuição de fatores como (i) elevado nível de incerteza – tanto pela piora das perspectivas de realização das reformas fiscais, como pelo cenário eleitoral, que permaneceu indecifrável por muito tempo, (ii) a permanência do juro futuro em patamar elevado, mesmo com a Selic em seus níveis históricos mínimos, (iii) a lentidão na queda dos spreads bancários e (iv) a letargia do setor de construção, da indústria e dos serviços em geral. Além disso, o cenário global piorou, colocando forte pressão em moedas de países emergentes, como nos casos da Argentina (abril) e Turquia (agosto). O Brasil não sofreu tanto quanto estes países, mas também observou uma desvalorização significativa na sua moeda, chegando a preocupar a escalada do dólar.

Não se pode esquecer que a greve dos caminhoneiros, ocorrida no fim de maio, colocou a pá de cal no crescimento do ano, não só afetando a atividade econômica daquele período específico, como contribuindo para manter elevada a incerteza dos agentes.

Quando se olha para 2019, não é difícil perceber que, em certos aspectos, há um cenário similar àquele do início de 2018, mas a novidade é que estamos sob nova administração.

Em que pese o hiato do produto permanecer bastante negativo: a depender da metodologia utilizada, as estimativas podem variar de -3,7% a -6,4%, de acordo com o Ipea e a IFI (Instituição Fiscal Independente), respectivamente, mas para piorar, ainda há outras variáveis:

• Desemprego atingindo 11,9% na última leitura, o que na prática significa 12,5 milhões de desocupados e com a informalidade atingindo 38 milhões de pessoas;

• Nível de utilização da capacidade instalada na indústria, ainda bem abaixo de sua média histórica, evidenciando a ociosidade na economia brasileira;

• Nossa situação fiscal é dramática. A aceleração da dívida bruta e a dificuldade da obtenção de resultados primários positivos são fatos amplamente conhecidos. Mais recentemente, vem se destacando a situação dos Estados, praticamente insustentável, que deverá exigir nova ajuda da União. Sabe-se que, sem a reforma da previdência, os déficits orçamentários dificilmente serão revertidos em todas as esferas, mantendo a dívida bruta em direção aos 100% do PIB;
• No setor externo, há mudanças em curso na economia global: desaceleração do crescimento, elevação dos juros nos Estados Unidos, guerra comercial entre alguns players importantes e o sempre presente risco de desaceleração chinesa, formando os atores para uma nova crise e recessão global.

Logicamente, outros fatores também podem impedir o alcance de um crescimento mais significativo. Sabemos que para o produto retornar ao patamar de 2014, depois de quedas tão acentuadas, ainda levará certo tempo, principalmente em termos per capita. Entretanto, há que se começar a fechar esse gap. No meio de tantas incertezas, esperamos que os fatores positivos nos surpreendam e nos permitam crescer algo em torno de 3% em 2019.

A boa notícia é que pelo que foi dito até aqui o novo governo está imbuído em acelerar o processo de reformas, o que deve trazer novos investimentos e paulatinamente, novos empregos, fazendo a economia dar os primeiros sinais de crescimento no primeiro semestre, quando as mudanças devem ser apresentadas e efetivamente pisar no acelerador no segundo semestre.

Em relação ao mercado de seguros há algumas observações a fazer:

• O mercado de seguros de automóveis deve apresentar uma recuperação lenta e tem por desafio encontrar novos modelos de precificação, já que o avanço das chamadas cooperativas veiculares é real e já incomoda os corretores de seguros e seguradoras em suas renovações;

• Com a retomada das obras paradas há um mercado interessante para os seguros de riscos de engenharia, responsabilidades, garantia, mas tudo depende da velocidade com que essas obras serão licitadas, lembrando que há novas regras para fazê-lo nas empresas públicas e na administração pública, exigindo até que os fornecedores estejam em compliance com as normas de integridade recém elaboradas e publicadas;

• Os ramos patrimoniais devem seguir o que já fazem. Nem mais, nem menos, com melhora no segundo semestre. Vale lembrar que houve muitas falências e empresas que foram fechadas. A retomada dos investimentos é lenta, mas será iniciada;

• Os seguros de pessoas devem começar a melhorar também no segundo semestre, assim como os planos de saúde, na esteira da retomada do crescimento e dos investimentos.

Sumarizando, pelo menos na minha visão, 2019 ainda será um ano difícil, mas estou otimista em relação ao nosso mercado. Deveremos crescer acima da inflação e consolidar as bases para um crescimento sustentável em 2020, 2021 e 2022. Se essas notícias não são espetaculares para 2019, pelo menos tudo indica que haverá crescimento, o que por si só é muito bom.

Talvez seja a hora de aplicar alguns velhos e bons conceitos que com o tempo vão sendo esquecidos: cliente que tem apenas um tipo de relacionamento com o corretor de seguros não é cliente fiel. Cliente feliz, também não.

Por isso, que tal abordar esse cliente para outras oportunidades de negócios? Que tal começar imediatamente a criar relacionamentos, aí sim, multifacetados e sustentáveis? Que tal revolucionar a forma como o serviço é prestado aos clientes? Particularmente, nunca me sai da cabeça a frase de Peter Drucker: ““Qualidade de serviço não é o quanto nos dedicamos ao serviço. É o que o cliente obtém com isso.”

Quero ressaltar que o que é mais importante é que os corretores de seguros têm que estar prontos e capacitados para fazer frente as novas demandas e novos competidores, como as insutechs que já fazem seus primeiros ensaios em nosso mercado e, acreditem, vêm para ficar, conquistando primeiro os “digitais” e depois os consumidores comuns. Estar antenado com isso é razão de sobrevivência, assim como, cada vez mais, ser mais especializado e pronto para prestar serviços de excelência é fundamental e inadiável.

Enfim, 2019. Vamos que vamos.

 

Sergio Ricardo de M Souza

 

Executivo dos Mercado de Seguros com mais de 20 anos de experiência. Mestre em Sistemas de Gestão – UFF/MSG, MBA em Sistemas de Gestão – GQT – UFF. Engenheiro Mecânico – UGF. Membro da ANSP – Academia Nacional de Seguros e Previdência e ex-Diretor do CVG – Clube Vida em Grupo RJ. Fundador do Grupo Seguros – Linkedin. Associado da ABGP, PMI, PRMIA, IARCP. Colunista da Revista Venda Mais e do Portal CQCS. Coordenador de Pós-Graduação e Professor dos programas de Pós-Graduação do IBMEC, UFF, ENS, FGV, FUNCEFET, IPETEC UCP, UVA, CEPERJ, ECEMAR, ESTÁCIO DE SÁ, TREVISAN, IBP, CBV. Sócio-Diretor da Gravitas AP – Consultoria e Treinamento, especializada em gerenciamento de riscos, seguros e resseguro. e-mail: sricardo@gravitas-ap.com

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