Incêndio no Museu da Língua Portuguesa

22/12/2015 / FONTE: Sergio Ricardo


fogo1_20151221164053Lamentável o incêndio ocorrido em 21/12 na Estação da Luz em São Paulo, justamente no Museu da Língua Portuguesa, que é uma das mais interessantes iniciativas para preservar um dos nossos patrimônios nacionais.

O bombeiro civil que deu primeiro combate ao incêndio ficou severamente ferido e acabou falecendo no hospital. As imagens trazidas pela cobertura de TV mostraram a velocidade da propagação do fogo e o trabalho heroico dos bombeiros paulistas para controla-lo e debelá-lo, ao longo de quatro ou cinco horas, sob fortes chuvas e ventos.

A Estação da Luz, no coração da cidade de São Paulo, é um dos destaques da arquitetura do início do século passado, com fortes traços europeus e é um dos patrimônios culturais e arquitetônicos da cidade. A decisão de instalar ali o Museu da Língua Portuguesa, dentro de uma estratégia de revitalização daquela importante região do centro de São Paulo, há anos abandonada e degradada, foi acertada e interessante.

Já havia ocorrido um incêndio no local em 1946 e o prédio foi restaurado. As características originais foram restauradas, mas será que se pensou em termos de melhorias significativas em termos de segurança para abrigar futuras ocupações? Isso vai além de eventuais licenças de funcionamento no âmbito da prefeitura e mesmo do corpo de bombeiros.

A notícia que havia presença de estruturas de madeira, material plástico e borracha (não se sabe ainda se previstas por quem projetou a segurança das instalações) é obviamente incompatível com os modernos padrões, restando entender como eram empregados.

Interessante e trágico perceber quando eventos assim acontecem, que ficam expostas, mais uma vez, as nossas mais profundas mazelas em termos de gerenciamento de riscos, notoriamente quanto a formulação de estratégias de resposta aos riscos como eliminação, prevenção e mitigação, a partir de processos de contextualização, identificação, análise e avaliação de riscos.

Gerenciar riscos não é somente cuidar de sistemas, equipamentos e processos para combater incêndios. Mesmo a existência de sprinklers em ambientes assim é absolutamente questionável, pois ao mesmo tempo que a água apaga o fogo, traz outros danos. Gerenciar riscos, portanto, é pensar o ambiente desde o projeto para evitar ou reduzir definitivamente a probabilidade de ocorrência de eventos que possam dar origem a incêndios e isso se faz com alterações estruturais, em materiais de acabamento, elétricos, de iluminação, na alteração das condições de temperatura e em muitas outras coisas.

A inexistência ou a carência de tudo isso ou de parte explica o porquê das seguradoras encararem esses riscos como muito agravados e, por isso, dificilmente se encontra colocação para eles no mercado.

A outra face do problema é o desconhecimento quase que completo de metodologias para tal, como por exemplo, o ABC Risk Assessment Scale for Museum Collection, desenvolvida por Stefan Michalsky, que se baseia na resposta a questões pré-estabelecidas, seguido pela atribuição de valores para cada resposta obtida para definir a que riscos os acervos (sejam eles o próprio local ou seu conteúdo) estão expostos, que diga-se de passagem são muitos e sua importância, além do próprio risco de incêndio.

Há alguns anos, conversando com especialistas no assunto, percebi o quanto estamos à mercê da sorte no Brasil e que insistimos em aprender errando e perdendo, ao invés de adotarmos atitudes mais proativas.

Fazendo uma breve comparação, o mesmo acontece em exposições de arte em galerias, teatros, igrejas e outros ambientes similares, por contarem quase sempre com instalações elétricas incompatíveis, iluminação quente, acessórios de decoração produzidos em madeira não tratada contra a propagação de chamas, plásticos e outros materiais combustíveis que não deveriam ser utilizados.

A pergunta que fica é: por que ninguém pensa em fazer de forma adequada, seguindo normas e boas práticas ou por que nunca há recursos para isso? Há muitas respostas. Suspeito que passam pelo desprezo que nossa sociedade dá a preservação da nossa própria história e cultura, políticas errôneas, dificuldade de acesso aos patrocinadores privados e, sobretudo, gestão ineficiente e despreparada.

O mais interessante é que as pessoas saem do Brasil para visitarem museus e galerias de arte na Europa e nos Estados Unidos pagando ingressos caríssimos e não dão a mínima para os nossos próprios, que muitos sequer conhecem ou sabem se estão abertos ou fechados.

Sabemos, por conta das notícias, de fechamentos por falta de recursos para fazer frente às necessidades de limpeza, vigilância e conservação, como é o caso do Museu Nacional (da Quinta da Boa Vista) administrado pela UFRJ (severamente impactada em seu orçamento, como as demais universidades federais, pelo repasse de verbas) e, muitos outros, país afora. Assim, quando faltam recursos para o básico, pensar em segurança das instalações é quase um luxo.

A boa notícia em relação ao incêndio do Museu da Língua Portuguesa, pelas notícias que saíram na imprensa, é que o acervo foi todo digitalizado e que, pelo menos, a informação não foi perdida. 

Torçamos todos para um 2016 bem melhor.

Sergio Ricardo de Magalhães Souza

Mestre em Sistemas de Gestão – UFF/MSG, MBA em Sistemas de Gestão – UFF, Mestre em Engenharia Mecânica, COPPE-UFRJ. Engenheiro Mecânico – IME/UGF. Doutorando em Engenharia de Produção na UFF. Membro da ANSP – Academia Nacional de Seguros e Previdência e do CVG – Clube de Vida em Grupo RJ. Fundador do Grupo Seguros – Linkedin. Membro da ABGP – Academia Brasileira de Gestão de Projetos e do PMI Project Management Institute. Fellow at The Professional Risk Managers International Association (PRMIA) International Association of Risk and Compliance Professionals (IARCP). Membro do NFPA National Fire Protection Association. Membro da UBQ – União Brasileira da Qualidade – RJ. Colunista da Revista Venda Mais e do Portal CQCS. Coordenador Acadêmico do MBA em Gerência de Riscos – UFF/ESNS. Coordenador Acadêmico do MBA Executivo em Seguros e Resseguro da ESNS. Coordenador Acadêmico do MBA Gerência de Riscos da ESNS. Coordenador Acadêmico do MBA Gestão de Performance – FUNCEFET, Coordenador do MBA Saúde Suplementar na UCP/IPETEC. Ex-coordenador do MBA Seguros Gestão Estratégica – UVA. Professor dos programas de Pós-Graduação da ESNS, UFF, FGV, IBMEC, FUNCEFET, IPETEC UCP, UVA, CEPERJ, ECEMAR, ESTÁCIO DE SÁ, TREVISAN, IBP – Instituto Brasileiro do Petróleo, CBV – Confederação Brasileira de Voleibol. Executivo do Mercado de Seguros com mais de 20 anos de experiência. Sócio-Diretor da Gravitas AP – Consultoria e Treinamento especializada gerenciamento de riscos, seguros e resseguro. e-mail: sricardo@gravitas-ap.com

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