Fala José | 13 de setembro de 2021 | Fonte: José Luis

Os desafios do seguro de automóvel a curto prazo.

Há tempos ouvimos previsões de que o seguro de automóvel passará por mudanças tecnológicas e de comportamento do consumidor às quais dificilmente os corretores de seguros se adaptarão. Veículos por assinatura (“pay per use”), preferência de deslocamento por aplicativos, ofertas de seguros pasteurizadas em sites e aplicativos, veículos autônomos a prova de roubo ou colisão e até mesmo cooperativas ou associações obrigando as seguradoras a achatarem margens e comissões.

Estas perspectivas negativas de longo prazo valem mais como um aviso de que os corretores precisam diversificar suas carteiras do que de fato como uma exclusão iminente dos corretores como intermediários da venda do seguro de automóvel.

Mas, de forma mais imediata, o seguro de automóvel enfrenta outro desafio com origem na falta de peças e componentes eletrônicos, o que diminuiu a produção de veículos novos (agosto/20 x agosto/21: queda de 22%¹) e na sinistralidade acima da expectativa para um momento de pandemia. 

Peças para reparo de forma geral sempre foram um desafio para as seguradoras mas a falta de componentes eletrônicos é novidade. A razão é que a indústria mundial de microchips, microprocessadores e semicondutores teve que atender ao enorme aumento da venda de computadores, celulares e tabletes gerado pelo trabalho comutado¹, o home office, consequência de uma pandemia imprevisível. 

Com menos peças e componentes, a produção de auto ficou aquém de uma demanda que surpreendeu dada a perspectiva inicial de que o home office desestimularia o uso de automóveis que passariam então mais tempo nas garagens. Mas não foi o que se viu no trânsito das grandes cidades e nem na sinistralidade. Pessoas deixaram de usar o automóvel todos os dias mas outras que tinham automóvel e usavam o transporte publico, não podendo trabalhar em home office passaram, por segurança sanitária, a usá-lo. 

Com a demanda de compra de automóveis em alta e a baixa entrega de novos ocorreu o aumento da venda dos usados. No acumulado do ano até agosto a venda de autos usados cresceu 48%² fazendo valer a lei da oferta e da procura: o preço do automóvel usado aumentou em media 13%². 

Quais os impactos imediatos para o seguro de automóvel?

1. Aumento do preço. Dado que as apólices de seguro são corrigidas pela FIPE³, as indenizações passaram a ser maiores que o LMI (“Limite Máximo de Indenização”) originalmente segurado, o que gerará nas seguradoras a necessidade de correção de preços. Quem previu e já corrigiu tenderá a preservar melhor seus resultados e suas reservas.

2. As seguradoras deverão dar atenção a Circular Susep nº 639⁴ de 09/08/21 (em vigor a partir de 01/09/2021) que volta a permitir a contratação de seguros a valor determinado (Art. 3º§ 2º). Esta modalidade que fixa o LMI na contratação tende a proteger a seguradora de aumentos dos preços dos veículos e ainda permite ganhos adicionais através de endossos de aumento de LMI.

3. As clausulas de carro extra gerarão mais despesas as seguradoras e o corretor atento vai recomendar a contratação sempre pelo maior período possível.

4. As associações e cooperativas que regulam as indenizações ajustando a cobrança das franquias⁵ ao caixa tenderão a um maior atrito com seus associados mas continuarão com a vantagem de usar peças usadas, algo que as seguradoras, mesmo autorizadas (Circular Susep nº 639 , Art. 13 § 1º e Circular Carta 01/19, Art 1⁶), não tem condições práticas hoje de fazer pois não existem rotinas de desmanche, teste, garantia das peças e distribuição estabelecidas dentro dos padrões de qualidade que elas se obrigam. E, quando fizerem, só valerá para seguros com autorização prévia a contratação (Lei 8.078 de 11.09.90 – “Código do Consumidor” – Art 21⁷).

Resumindo: o preço do seguro de automóvel nos termos dos atuais produtos vai subir.

Fontes:

¹ https://www.sbtnews.com.br/noticia/brasil/179912-producao-de-veiculos-novos-cai-22-por-falta-de-componentes-eletronicos

² https://jovempan.com.br/programas/jornal-da-manha/venda-de-carros-usados-atinge-maior-patamar-desde-2004.html

³https://veiculos.fipe.org.br/#:~:text=A%20Tabela%20Fipe%20expressa%20pre%C3%A7os,par%C3%A2metro%20para%20negocia%C3%A7%C3%B5es%20ou%20avalia%C3%A7%C3%B5es.

⁴  https://www.in.gov.br/web/dou/-/circular-susep-n-639-de-9-de-agosto-de-2021-338083080

https://www.cqcs.com.br/coluna/fala-jose/outra-abordagem-para-protecao-veicular/

http://www.susep.gov.br/setores-susep/noticias/noticias/Carta%20Circular%20Eletronica%20SUSEP%201%202019.pdf/view

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm

José Luís S Ferreira da Silva

José Luís S Ferreira da Silva atua no mercado segurador há 35 anos, foi diretor da Porto Seguro Seguros, Europ Assistance, Tokio Marine Seguradora e atualmente é Diretor Geral da GC do Brasil. É formado em Direito (PUC), pós graduado em Administração de Empresas (FGV) com MBA em Seguros (IBMEC/Funenseg) e com diversos cursos de especialização. Ex reitor do Clube da Bolinha SP, membro do conselho da Associação Paulista dos Técnicos de Seguros (APTS), coordenador da cátedra Canais de Distribuição da Academia Nacional de Seguros e Previdência (ANSP), palestrante de diversos encontros, eventos e congressos (inclusive os CQCS´s Insurtech 2018 e 2019). Apaixonado pelo mercado de seguros e consciente de que o sucesso depende do respeito aos corretores de seguros, concorrentes, colaboradores e prestadores.

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